Descrever o cenário propriamente dito, do caminho de Santiago, suas belas paisagens,suas igrejas seculares, seus povoados medievais, suas ruínas...é algo impossível de se fazer com as palavras, e até em fotografias, tamanha a grandeza, a dimensão transcendental, a imensa carga energética que o banha em toda sua extensão.
Para sua reconstituição, ainda que não fosse retratado fidedignamente, precisava que fossem arregimentadas legiões de diretores teatrais e produtores cinematográficos, com recursos avançados, de última geração, daqueles utilizados nas grandes produções americanas,para talvez, se conseguir algo parecido com tudo o que se vê no caminho de pedras guiado pela via láctea, onde a natureza plantada por Deus e pelo homem, permanece intocada, dando-nos a exata proporção de nossa pequenez diante das maravilhas divinas.
Imagine-se caminhando por longos trechos, entre subidas e descidas,por entre estradinhas de cascalho batido e verdes plantações de cereais de um lado e de outro, até aonde a vista alcança.Aqui e acolá surge uma árvore solitária, centenária, como que querendo abrilhantar ainda mais aquela paisagem, onde o vento forte arrasta o trigo de um lado para o outro, formando diversas ondas,promovendo um doce bailar das folhagens verde-cintilante, que brilham cada vez mais com o contato do sol.O trigo canta, emite um som único, que ecoa na imensidão do vale, sempre que o vento corta; e o espetáculo fica grandioso, para a apreciação de cada peregrino passante.
Em outro momento parece que estamos vivendo na época de Dom Quixote, e que a qualquer momento ele vai aparecer por entre aquelas ruínas de pedra, à quela estrada de flores multicoloridas,àqueles moinhos que fazem parte da história de um povo.Enormes fardos de feno espalham-se por entre as cercas de madeira que indicam os limites de alguma propriedade privada,com suas grandes casas de pedra e flores nas janelas.Vacas e ovelhas pastam displicentemente,parecendo não terem pressa de desocupar o caminho para que possamos seguir.
De vez em sempre adentramos em uma floresta de mata fechada formada por cedros, castanheiras,nogueiras...que há séculos assistem o vai e vem de pessoas que seguem de cajado em punho,a passos firmes, em busca de algo desconhecido mas que sabem irão encontrar.
São estradinhas constantes, que serpenteiam por todo o percurso,alternando sua decoração:ora são flores amarelas, lilás, brancas, vermelhas...como que querendo aliviar o cansaço de nosso corpo.Caminhamos sobre pontes arqueadas, do tempo dos romanos, por calçadas de pedra...que nos levam a algum povoado minúsculo, de ruas estreitas e casas de pedra com portas largas, que parecem esconder algum segredo de um tempo em que cavaleiros duelavam pelo amor de uma donzela...
Ah Santiago! Caminho das seduções, das descobertas, que lhe transporta a uma vivência passada de uma forma tão intensa, tão verdadeira, que você sente de fato ter vivido ali, que aqueles prédios seculares fizeram parte da história da sua vida, e você começa a se integrar como se fosse uma ramificação do próprio caminho, que pulsa no seu corpo, altera seus batimentos cardíacos, lhe completa,lhe deixa feliz.
Na imensidão dos campos que você caminha, você se sente só,mas muito perto de você mesmo.Sem companhia, é obrigado a voltar-se para dentro de si, e o encontro é inevitável.Descobertas são feitas,e dá-se o renascimento, onde constata-se que na essência, somos todos iguais.Muda-se a couraça, o envólucro protetor, mas as características inerentes a todo ser humano, estas são literalmente iguais; e é isso que nos mantém ligados num enorme desejo de mudança,na vontade de alcançar nossa Santiago, ainda que longe de terras espanholas.
quinta-feira, 18 de março de 2010
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